{"id":26367,"date":"2018-11-20T14:58:09","date_gmt":"2018-11-20T17:58:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.central42.com.br\/novo\/?p=26367"},"modified":"2018-11-20T14:58:09","modified_gmt":"2018-11-20T17:58:09","slug":"festival-do-rio-2018-ultimo-dia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/central42.com.br\/novo\/festival-do-rio-2018-ultimo-dia\/","title":{"rendered":"Festival do Rio 2018 | Como foi o d\u00e9cimo (e \u00faltimo) dia desta edi\u00e7\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<!-- Start Audima Widget Injection -->\n<div id=\"audimaWidget\"><\/div>\n<script src=\"https:\/\/audio.audima.co\/audima-widget.js\"><\/script>\n<!-- End Audima Widget Injection -->\n<p>Infelizmente o inevit\u00e1vel aconteceu e o \u00faltimo dia do<a href=\"https:\/\/central42.com.br\/novo\/category\/festival-do-rio-2018\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> <strong><em>Festival do Rio<\/em> <\/strong><\/a>finalmente chegou. <a href=\"https:\/\/central42.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/festivaldorio_pb495.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-26254\" src=\"https:\/\/central42.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/festivaldorio_pb495-300x195.png\" alt=\"Festival do Rio\" width=\"300\" height=\"195\" srcset=\"https:\/\/central42.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/festivaldorio_pb495-300x195.png 300w, https:\/\/central42.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/festivaldorio_pb495-150x97.png 150w, https:\/\/central42.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/festivaldorio_pb495-110x73.png 110w, https:\/\/central42.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/festivaldorio_pb495.png 495w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Foram 10 dias de uma verdadeira volta ao mundo atrav\u00e9s do alucinante olhar cinematogr\u00e1fico. \u00a0Assisti obras de diferentes pa\u00edses, como S\u00e9rvia, Noruega, M\u00e9xico e L\u00edbano e pude ter uma no\u00e7\u00e3o do atual panorama internacional.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de servir para antecipar tend\u00eancias, o Festival tamb\u00e9m serve como uma bela demonstra\u00e7\u00e3o do que est\u00e1 por vir na futura temporada de premia\u00e7\u00f5es. E neste \u00faltimo dia, \u00a0conferi duas das performances femininas mais marcantes do ano atrav\u00e9s da grande Natalie Portman, que toma Vox Lux de assalto, e de Keira Knightley, que volta a fornecer uma \u00f3tima impress\u00e3o depois de v\u00e1rios anos investindo no exagero.<\/p>\n<p>J\u00e1 a saideira foi O Grande Circo M\u00edstico, o representante brasileira na corrida por uma vaga no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Mas a decep\u00e7\u00e3o foi inversamente desproporcional \u00e0 qualidade do filme, que se revelou um dos piores do Festival. Mas o saldo final do Festival eu comentarei num artigo separado, para agora, me aterei \u00e0s cr\u00edticas finais:<\/p>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><strong><em>Colette (Idem)<\/em>\u00a0| 4\/5 Estrelas<\/strong><\/h4>\n<p>Sidonie Gabrielle Colette foi uma das mais ilustres escritoras da hist\u00f3ria da Fran\u00e7a, tendo escrito mais de quatro dezenas de livros e contos, alcan\u00e7ando fama internacional com sua personagem Claudine, <a href=\"https:\/\/central42.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/4484434.jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxx.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignright size-large wp-image-26432\" src=\"https:\/\/central42.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/4484434.jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxx-366x650.jpg\" alt=\"Festival\" width=\"366\" height=\"650\" srcset=\"https:\/\/central42.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/4484434.jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxx-366x650.jpg 366w, https:\/\/central42.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/4484434.jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxx-84x150.jpg 84w, https:\/\/central42.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/4484434.jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxx-169x300.jpg 169w, https:\/\/central42.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/4484434.jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxx.jpg 608w\" sizes=\"(max-width: 366px) 100vw, 366px\" \/><\/a>cujas hist\u00f3rias foram verdadeiros best-sellers na \u00e9poca. Entretanto, Colette s\u00f3 recebeu o devido reconhecimento como autora muito tempo depois, j\u00e1 que seu marido Willy era quem assumia a autoria de suas obras.<\/p>\n<p>Iniciando a narrativa em 1893, com Colette (Keira Knightley) vivendo ainda no interior da Fran\u00e7a, o filme conta a origem da escritora desde o in\u00edcio de seu relacionamento com Willy (Dominic West), um cr\u00edtico teatral de prest\u00edgio que escrevia contos nas horas vagas, at\u00e9 sua ascens\u00e3o na sociedade, quando suas ambi\u00e7\u00f5es ficaram grandes demais para serem escondidas sob a sombra do marido.<\/p>\n<p>Colette \u00e9 vivida por uma Keira Knightley bem distante de suas habituais caretas e maneirismos exagerados, retomando o caminho das boas performances, de onde se desviou ap\u00f3s o excelente Desejo e Repara\u00e7\u00e3o. Aqui, Knightley comp\u00f5e Colette como uma mo\u00e7a doce e repleta de energia, que aos poucos vai abandonando a inoc\u00eancia e a submiss\u00e3o, quando se transforma numa mulher cheia de personalidade e cansada dos abusos do marido. Essa transi\u00e7\u00e3o \u00e9 retratada com habilidade pela atriz brit\u00e2nica, que demonstra talento ao convencer tanto como a jovem do interior, como mulher forte e estabelecida na metr\u00f3pole.<\/p>\n<p>J\u00e1 Dominic West, um ator talentoso, mas normalmente subestimado em fun\u00e7\u00e3o de uma carreira dominada por pap\u00e9is unidimensionais, tem a rara oportunidade de encarnar uma figura complexa. Willy \u00e9 um artista que n\u00e3o cansa de esbanjar sua cultura atrav\u00e9s de uma ret\u00f3rica de vocabul\u00e1rio rebuscado e uma l\u00e1bia invej\u00e1vel, o que lhe possibilita equilibrar-se entre a fachada de prest\u00edgio que ostenta na alta sociedade e o homem de atitudes moralmente question\u00e1veis e que vive sempre financeiramente apertado.<\/p>\n<p>E o roteiro \u00e9 h\u00e1bil ao n\u00e3o transformar Willy num vil\u00e3o, possibilitando que o p\u00fablico entenda suas motiva\u00e7\u00f5es, mesmo que estas sejam, no m\u00ednimo, pol\u00eamicas. Afinal de contas, estamos falando de um homem que justifica o adult\u00e9rio como algo \u201cque todo homem faz\u201d, e que sequer consegue cumprir a promessa de dedicar-se exclusivamente \u00e0 Colette, sua esposa. Para piorar, ele a obriga a escrever \u201cno m\u00ednimo quatro horas por dia\u201d, a fim de cumprir prazos deliberadamente assumidos com seu editor. Ali\u00e1s, ele chega at\u00e9 mesmo a trancafiar Colette num quarto quando esta se diz cansada, condicionando sua sa\u00edda ao avan\u00e7o na escrita de seu pr\u00f3ximo livro.<\/p>\n<p>E por falar em livro, a falta de car\u00e1ter<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>de Willy atinge o \u00e1pice com sua decis\u00e3o de excluir o nome da esposa (e verdadeira autora) como respons\u00e1vel pelas hist\u00f3rias de Claudine. O motivo para tamanho descaramento tamb\u00e9m escancara um machismo revelador, com a alega\u00e7\u00e3o de que \u201ca sociedade jamais aceitaria que essas hist\u00f3rias viessem da mente de uma mulher\u201d ou, pior, \u201cvoc\u00ea escreve para homens\u201d, chegando ao ponto de repreender Colette por um estilo \u201cfeminino demais\u201d.<\/p>\n<p>Esse cen\u00e1rio mis\u00f3gino serve como o gatilho perfeito para a independ\u00eancia de Colette, que resolve dar um basta nessa situa\u00e7\u00e3o ao abra\u00e7ar a liberdade, que \u00e9 ilustrada com os crescentes impulsos homossexuais que a personagem apresenta e que s\u00e3o encarados com surpreendente leveza por Willy, num esfor\u00e7o que humaniza o errante personagem. Em contrapartida, West e o roteiro falham ao n\u00e3o elaborarem uma transi\u00e7\u00e3o adequada a Willy, que se entregas a arroubos de f\u00faria e assume posturas abruptas demais que n\u00e3o condizem com sua imagem inicialmente constru\u00edda.<\/p>\n<p>Ainda na seara das imperfei\u00e7\u00f5es, a produ\u00e7\u00e3o jamais justifica a recorrente falta de dinheiro do casal principal, mesmo com a prosperidade conquistada com os livros de Claudine. Sim, aqui e ali Colette e Willy sugerem um gasto excessivo, mas os lucros obtidos com a venda de suas obras s\u00e3o t\u00e3o expressivos que o roteiro encontra s\u00e9rios problemas para ilustrar essas despesas exponenciais. Com isso, n\u00e3o conseguimos entender os motivos que levam o casal a frequentemente declarar-se \u00e0 beira da fal\u00eancia. Colette tamb\u00e9m demonstra certa neglig\u00eancia ao ignorar a fam\u00edlia da protagonista justamente quando esta assume publicamente sua homossexualidade. Nesse ponto, n\u00e3o h\u00e1 questionamentos e a produ\u00e7\u00e3o foge covardemente dos desafios que a escritora obviamente enfrentou.<\/p>\n<p>Felizmente, a deliciosa trilha sonora composta pelo estreante Thomas Ad\u00e8s ajuda na constru\u00e7\u00e3o de uma atmosfera sempre irresist\u00edvel e que faz de Colette uma cinebiografia de \u00e9poca que se afasta das abordagens frias e excessivamente formais de obras semelhantes. Parte desse sucesso deve ser atribu\u00eddo \u00e0 dire\u00e7\u00e3o segura de Wash Westmoreland (Para Sempre Alice) , que mant\u00e9m a c\u00e2mera quase sempre em movimento, e \u00e0 montagem precisa de Lucia Zucchetti (A Rainha) respons\u00e1vel por um ritmo \u00e1gil e que n\u00e3o cai nem mesmo com a abund\u00e2ncia de di\u00e1logos.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o designer de produ\u00e7\u00e3o Michael Carlin repete seu excepcional trabalho em A Duquesa, construindo cen\u00e1rios absolutamente fi\u00e9is \u00e0 \u00e9poca em que o filme se passa, conferindo personalidade tamb\u00e9m \u00e0s cenas internas, ao passo que os figurinos assinados por Andrea Flesch (O Duque de Burgundy), embora discretos e nada luxuosos, jamais comprometem a narrativa, contribuindo para refletirem seus personagens, como Colette, que inicia a hist\u00f3ria com vestidos conservadores e de tons pasteis e termina com trajes masculinos e de tons escuros.<\/p>\n<p>Competente ao retratar uma \u00e9poca conservadora e dominada por valores machistas, Colette \u00e9 uma cinebiografia de \u00e9poca deliciosa de assistir e que se beneficia imensamente de uma performance inspirad\u00edssima de Keira Knightley.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><strong><em>Vox Lux (Idem)<\/em>\u00a0| 3.5\/5 Estrelas<\/strong><\/h4>\n<p>O culto \u00e0 celebridade n\u00e3o \u00e9 nenhuma novidade, embora tenha alcan\u00e7ado n\u00edveis elevados na atualidade. Gra\u00e7as \u00e0 necessidade cada vez maior da juventude por \u00eddolos, vivemos uma \u00e9poca em que as c\u00e2meras deixaram de lado o papel de exclusividade em eternizar momentos, para se tornarem instrumentos que colocam em<a href=\"https:\/\/central42.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/2137689.jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxx.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignright size-large wp-image-26433\" src=\"https:\/\/central42.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/2137689.jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxx-435x650.jpg\" alt=\"Festival\" width=\"435\" height=\"650\" srcset=\"https:\/\/central42.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/2137689.jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxx-435x650.jpg 435w, https:\/\/central42.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/2137689.jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxx-100x150.jpg 100w, https:\/\/central42.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/2137689.jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxx-201x300.jpg 201w, https:\/\/central42.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/2137689.jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxx.jpg 723w\" sizes=\"(max-width: 435px) 100vw, 435px\" \/><\/a> xeque a privacidade das figuras p\u00fablicas, que t\u00eam suas vidas expostas como em g\u00f4ndolas de supermercados. Por outro lado, cabe um questionamento: Figuras p\u00fablicas devem ter privacidade? A privacidade \u00e9 uma utopia para aqueles que atingem o estrelato?<\/p>\n<p>Lidando com isso, Vou Lux nos apresenta a Celeste (Natalie Portman), retratada como uma super estrela do calibre de uma Lady Gaga (ou Madonna, para os mais velhos), por exemplo. Sua vida, por outro lado, nem sempre foi de privil\u00e9gios e sua carreira s\u00f3 decolou depois de uma trag\u00e9dia, quando foi a \u00fanica sobrevivente do massacre que ocorreu em sua escola de m\u00fasica. Depois de uma penosa recupera\u00e7\u00e3o, a garota, que sempre exibiu talento, utilizou sua exposi\u00e7\u00e3o na m\u00eddia como escada, chamando a aten\u00e7\u00e3o de um consagrado produtor (Jude Law), que a transforma rapidamente numa artista campe\u00e3 de vendas e extremamente midi\u00e1tica. Celeste \u00e9 uma daquelas jovens que enriquecem rapidamente, tornando-se uma figura grande demais para ser controlada, o que passa a lhe render problemas recorrentes at\u00e9 a fase adulta.<\/p>\n<p>Dividida em atos nomeados como refer\u00eancias b\u00edblicas (g\u00eanesis, pr\u00e9-g\u00eanesis), a hist\u00f3ria escrita por Brady Corbet (tra\u00e7a uma curiosa liga\u00e7\u00e3o que remete \u00e0 pr\u00f3pria mente de Celeste, j\u00e1 que \u00e9 poss\u00edvel enxergar um coment\u00e1rio sobre o culto \u00e0 celebridade, mas tamb\u00e9m \u00e0 vis\u00e3o da artista sobre sua imagem perante ao p\u00fablico, afinal ela n\u00e3o admite ser tratada de uma forma inferior, assumindo uma postura quase divina. C\u00e1 entre n\u00f3s, ela n\u00e3o \u00e9 diferente de muitas artistas da atualidade.<\/p>\n<p>Interpretada por Raffey Cassidy enquanto jovem, Celeste possui um carisma cintilante, mas \u00e9 seu talento como cantora que acaba lhe revelando uma faceta midi\u00e1tica irresist\u00edvel aos tabloides. O problema \u00e9 que sua rela\u00e7\u00e3o de altos e baixos com a irm\u00e3 acaba moldando seu car\u00e1ter e lhe deixando vulner\u00e1vel \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o. Cassidy faz um trabalho acima do aceit\u00e1vel, sendo h\u00e1bil ao transmitir a for\u00e7a de sua personagem sempre de forma convincente e segura, brilhando igualmente nas sequ\u00eancias musicais.<\/p>\n<p>Por outro lado, Vox Lux sobe de patamar quando Natalie Portman entra em cena para interpretar Celeste em sua vers\u00e3o adulta. Dona de uma presen\u00e7a inebriante, Portman domina todas as cenas e ofusca todos ao seu redor. Investindo numa composi\u00e7\u00e3o rica que inclui uma dic\u00e7\u00e3o anasalada e uma linguagem corporal estilizada, a atriz vencedora do Oscar faz de Celeste uma personagem avassaladora. Absolutamente eficaz ao retratar os dramas da personagem, Portman faz de Celeste uma mulher visivelmente atormentada por fantasmas do passado, o que lhe confere um ar fr\u00e1gil e vulner\u00e1vel escondido por tr\u00e1s da m\u00e1scara de \u00edcone pop sempre sobre um pedestal. Essa composi\u00e7\u00e3o transforma a \u201cCeleste Adulta\u201d numa figura gigantesca e fascinante, e Natalie Portman \u00e9 um show \u00e0 parte.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de roteirista, Brady Corbet (A Inf\u00e2ncia de um L\u00edder) assume a dire\u00e7\u00e3o do projeto com m\u00e3o pesada, determinado a uma abordagem diferente que confere um estilo singular a Vox Lux, a come\u00e7ar pela curiosa disposi\u00e7\u00e3o dos cr\u00e9ditos que iniciam e encerram a proje\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, Corbet investe numa est\u00e9tica quase psicod\u00e9lica que, embora soe pontualmente como algo pretensioso, funciona em sua inten\u00e7\u00e3o de buscar o diferente, refletindo a personalidade de Celeste. Para isso, Corbet conta com um design de produ\u00e7\u00e3o inspirado, que corrobora a pretens\u00e3o de construir uma obra que subverte o subg\u00eanero biogr\u00e1fico (mesmo que ficcional).<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p>Por outro lado, o excesso de saltos temporais prejudica o desenvolvimento da trama, numa estrat\u00e9gia onde cria-se imensa lacunas a serem preenchidas aos poucos. S\u00f3 que nem todas as respostas s\u00e3o fornecidas e acontecimentos importantes para a hist\u00f3ria e, principalmente para a trajet\u00f3ria dos personagens, s\u00e3o apenas mencionados em conversas, como o nascimento da filha de Celeste (jamais conhecemos o pai da crian\u00e7a) e um acidente com v\u00edtimas, por exemplo.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p>J\u00e1 as can\u00e7\u00f5es, todas compostas pela cantora Sia, funcionam e ganham personalidade na voz estridente de Natalie Portman, que assume com gosto a persona de cantora pop. Vale ressaltar, por\u00e9m, que no quesito musical, Vox Lux acaba ficando atr\u00e1s de Nasce Uma Estrela, por exemplo, uma obra semelhante e que apresentou composi\u00e7\u00f5es muito superiores. Mesmo n\u00e3o sendo marcantes, as obras de Celeste n\u00e3o comprometem o resultado final.<\/p>\n<p>Encarnando o agente de Celeste, Jude Law (Animais Fant\u00e1sticos: Os Crimes de Grindewald), um ator talentoso e sempre interessante, \u00e9 eclipsado pela performance arrebatadora de Natalie Portman, mas ganha tempo de tela o bastante para construir um homem de modos contidos e investir numa voz grossa e pesada que surgem como um belo contraste \u00e0 extravag\u00e2ncia de Portman.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 quest\u00e3o inicial, Vox Lux faz quest\u00e3o de frisar seu discurso sobre o endeusamento das figuras p\u00fablicas do meio art\u00edstico, atrav\u00e9s de di\u00e1logos expositivos como o que coloca Celeste comparando seu trabalho ao Novo Testamento, ou nas perguntas da imprensa. Mas o fato \u00e9 que nem todo mundo est\u00e1 preparado para a vida sob os holofotes da fama e Celeste mostra atrav\u00e9s de seu comportamento mimado e arrogante que o n\u00famero de f\u00e3s \u00e9 inversamente proporcional ao seu despreparo.<\/p>\n<p>Reservando um show apote\u00f3tico ao cl\u00edmax da narrativa, Vox Lux termina basicamente assinando, metaforicamente, uma carta de recomenda\u00e7\u00e3o de Natalie Portman ao Oscar de Melhor Atriz, jogando luz sobre uma performance t\u00e3o eletrizante quanto \u00e0quela vista em Cisne Negro. Aqui, a israelita parece estar possu\u00edda durante o n\u00famero musical final, quando Celeste mostra seus movimentos e sua presen\u00e7a de palco.<\/p>\n<p>Esteticamente vibrante em seu desenvolvimento e beneficiado por uma atua\u00e7\u00e3o absurdamente espetacular de sua protagonista, Vox Lux escorrega nos anseios vorazes de seu inexperiente diretor\/roteirista, mas entrega uma experi\u00eancia ex\u00f3tica e de impacto, comentando sobre um assunto milenar e que nunca sai de moda.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><strong><em>O Grande Circo M\u00edstico (Idem)\u00a0<\/em>|\u00a01.5\/5 Estrelas<\/strong><\/h4>\n<p>Figura emblem\u00e1tica do cinema brasileiro, Cac\u00e1 Diegues (hoje Carlos Diegues) \u00e9 respons\u00e1vel por um n\u00famero consider\u00e1vel de obras que marcaram o imagin\u00e1rio popular (Xica da Silva, Bye Bye Brasil e Tieta do Agreste s\u00e3o apenas alguns exemplos) al\u00e9m de ter sido um dos fundadores do Cinema Novo. Por\u00e9m, uma vez estabelecida a<a href=\"https:\/\/central42.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/0702360.jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxx.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-large wp-image-26435\" src=\"https:\/\/central42.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/0702360.jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxx-488x650.jpg\" alt=\"Festival\" width=\"488\" height=\"650\" srcset=\"https:\/\/central42.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/0702360.jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxx-488x650.jpg 488w, https:\/\/central42.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/0702360.jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxx-113x150.jpg 113w, https:\/\/central42.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/0702360.jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxx-225x300.jpg 225w, https:\/\/central42.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/0702360.jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxx.jpg 810w\" sizes=\"(max-width: 488px) 100vw, 488px\" \/><\/a> import\u00e2ncia de Diegues para o cen\u00e1rio cinematogr\u00e1fico nacional, \u00e9 preciso reconhecer que faz muito tempo que n\u00e3o o vemos comandando uma obra digna de nota. O Grande Circo M\u00edstico n\u00e3o muda esse panorama.<\/p>\n<p>Contando uma hist\u00f3ria que se inicia em 1910 at\u00e9 chegar ao s\u00e9culo XXI, o roteiro encontra no circo que d\u00e1 nome \u00e0 produ\u00e7\u00e3o uma \u00e2ncora narrativa para o desfile de in\u00fameros personagens e tramas paralelas. Entre os que chegam e os que se v\u00e3o, por\u00e9m, Celav\u00ed (Jesu\u00edta Barbosa) \u00e9 o \u00fanico que permanece, imune aos efeitos do tempo.<\/p>\n<p>Podendo ser interpretado como uma esp\u00e9cie de \u201calma\u201d do Circo, Celav\u00ed \u00e9 o personagem mais interessante, muito mais pelo carisma de Jesu\u00edta Barbosa do que por qualquer outra coisa. At\u00e9 porque, o roteiro n\u00e3o demonstra o menor interesse em desenvolv\u00ea-lo, o que \u00e9 uma pena. Ali\u00e1s, nenhum personagem \u00e9 evolu\u00eddo a contento.<\/p>\n<p>Pior do que as figuras opacas que povoam a narrativa s\u00e3o os significados que estas carregam. O machismo sem resist\u00eancia, resultando em mulheres que surgem apenas como instrumentos sexuais, prontas para o prazer carnal, seja ele consensual ou n\u00e3o. E a nudez despropositada, aliada a planos bizarros que exploram o corpo feminino, pintam um retrato fetichista da obra.<\/p>\n<p>O sexo, diga-se de passagem, \u00e9 elemento recorrente no desenrolar da hist\u00f3ria, representando um elo entre os v\u00e1rios saltos temporais que se revela muito mais eficiente do que Celav\u00ed, algo que acho dif\u00edcil crer ter sido planejado pelo roteiro, que parte do nada rumo a lugar nenhum. N\u00e3o sentimos sequer um envolvimento dos artistas com o picadeiro, e o script falha ao negligenciar a fal\u00eancia do circo como entretenimento.<\/p>\n<p>Em compensa\u00e7\u00e3o, o design de produ\u00e7\u00e3o enche os olhos, com uma ambienta\u00e7\u00e3o fiel \u00e0 natureza circense, abusando das cores para retratar aquele universo. At\u00e9 mesmo as sequ\u00eancias mais complexas, como as que envolvem le\u00f5es ou acrobacias no trap\u00e9zio, soam convincentes, ainda que sem brilho. J\u00e1 a fotografia investe numa paleta esverdeada que acompanha toda a narrativa, fazendo uma combina\u00e7\u00e3o pontualmente eficiente sempre que Bruna Linzmeyer aparece em cena com seus olhos inebriantes.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p>Por fim, a experi\u00eancia de Carlos Diegues pode ser sentida a cada plano, com movimentos de c\u00e2mera sempre seguros e sem apelar para firulas est\u00e9ticas. Por isso, \u00e9 uma pena que sua expertise seja desperdi\u00e7ada numa hist\u00f3ria que al\u00e9m de n\u00e3o possuir um norte, promove valores question\u00e1veis.<\/p>\n<p>E acredite se quiser, caro leitor, esse foi o filme escolhido para representar o nosso pa\u00eds na corrida rumo a uma indica\u00e7\u00e3o ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, numa temporada com obras expressivamente superiores, como Benzinho, Yonlu e o excepcional Aos Teus Olhos (vencedor de tr\u00eas pr\u00eamios no Festival do Rio 2017).<\/p>\n<p>Para um filme que se prop\u00f5e a retratar a cultura circense, O Grande Circo M\u00edstico n\u00e3o possui o menor resqu\u00edcio dessa magia que por muito tempo cativou plateias de todos os lugares, soando muito mais como um t\u00f3rrido e convoluto conto machista que a utiliza como fetiche.<\/p>\n<script>console.log('Aud01');<\/script>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Infelizmente o \u00faltimo dia do Festival do Rio chegou. 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